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Pílulas de História: Maite Amaya e militância LGBTQIA+ na Latinamérica

Junho, além das festas populares, marcou para nós a celebração do orgulho LGBTQIA+. Sabemos que, entre as garrafadas de 28 de junho de 1969 no bar Stonewall e o lamentável fortalecimento da moral fascista nos últimos anos, o movimento se enraizou e manteve a resistência em vários lugares do mundo. No entanto, também se fortaleceu a incorporação da pauta pelo capitalismo, seja através de mais representação em produtos da cultura pop, seja através do estímulo à segregação das identidades que se afunilam em nichos de discurso e consumo. Para uma prática anarquista e, mais amplamente, de esquerda, reconhecer as diferenças e dissidências serve para entendermos, em coletivo, como coexistir sem reproduzir opressão. 

Ou seja, temos de procurar estar juntes, e não em pedacinhos. =)

Na esperança de superar a pandemia e a onda fascista que torna a vida da população LGBTQIA+ ainda mais dramática, resgatamos aqui no blog o vídeo da companheira Maite Amaya. Ela fala da sua luta para existir como mulher trans dentro do movimento feminista e da força que resultou do processo. Maite Amaya faleceu em 2017 e é parte da recente história LGBTQIA+, piqueteira e libertária na Argentina e América Latina. Vamos lembrar de Maite Amaya e dos grupos que, COM MUITO CLOSE, celebram a vida enquanto a defendem todos os dias.

As guei, as bi, as trava e as sapatão, tá tudo organizada pra fazer revolução <3

Links:
Filme Yo, la peor de todas [Youtube] [em espanhol]
Yo, la peor de todas [Wikipedia]
Maite Amaya: el adiós a la guerrera libertaria [Agencia Presentes] [em espanhol]

 

 

Contra ditadores e senhores

O que a onda antifascista e a morte de Miguel têm em comum além do coronavírus

A nova onda de manifestações contra o governo Bolsonaro trouxe o antifascismo de volta ao debate público. Porém, entre Xuxa se declarar antifascista e afirmar que não é de esquerda nem de direita e o presidente associar antifascista a terrorista, tem muita confusão no ar. No compasso da conjuntura, o antirracismo se amplifica: nos Estados Unidos, o assassinato de George Floyd impulsionou o imaginário popular contra o racismo estrutural. Em Pernambuco, a morte do menino Miguel, de 5 anos, atrai gente para as ruas e nos lembra da importância da luta do povo negro contra o racismo que se reproduz desde a colônia. Essas lutas não só acontecem conjuntamente durante a pandemia, como historicamente estão ligadas à luta dos movimentos de esquerda pela emancipação popular.

Todo antifascista tem de ser antirracista. Sempre.

Lucy Parsons, militante anarquista, 1886
Lucy Parsons, militante anarquista, 1886

Vamos começar do começo pois História não é bagunça: antifascismo é, na raiz, se opor ao fascismo. E um dos principais troncos do discurso fascista é a SUPREMACIA BRANCA. Por isso, todo fascismo é racista. Todo. Além do caso indiscutível da Alemanha nazista, tanto a Itália de Mussolini, quanto o Integralismo no Brasil eram racistas – mesmo que este último afirmasse que não.

O fascismo italiano concebeu um “racismo místico” e caucasiano com leis que perseguiam politicamente o povo judeu, ou que simplesmente massacravam à época os povos de África com o seu imperialismo, sendo estes perseguidos de forma aberta e brutal, e os primeiros por meio da discriminação pura e simples, sob o lema “discriminar não significa perseguir”. Já o Integralismo defendia que os povos indígenas e afrodescendentes deveriam obrigatoriamente se fundir aos ideiais da “civilização cristã” de origem portuguesa, perdendo assim suas características e particularidades em nome de uma suposta raça mestiça autenticamente brasileira.

Aqui no Brasil, e especialmente em Pernambuco, o racismo é parte de nossa História e de nossas práticas. Resquícios coloniais estão presentes de forma descarada. A casa-grande permanece perseguindo e massacrando o aquilombamento do povo negro e pressionando-o em direção à senzala. Em meio a uma democracia de fachada e burguesa, decretou-se às negras e negros uma liberdade que nunca foi vivida de fato. O povo negro continua com poucos direitos ou com nenhum, em indíces alarmantes de pobreza e precariedade. As mulheres negras são as que mais sofrem com os hábitos coloniais que seguem existindo, sendo empurradas a formar um exército de trabalhadoras domésticas para servir à casa-grande.

O caso do menino Miguel Otávio Santana é retrato disso. Aos 5 anos de idade, Miguel faleceu após despencar dos absurdos 35 metros de altura das Torres Gêmeas enquanto a patroa de sua mãe fazia as unhas. A mãe, trabalhadora doméstica, recebeu a ordem de passear com o cachorro e teve de deixar o filho aos cuidados de Sarí Gaspar Côrte Real, esposa do prefeito de Tamandaré. Patroa e prefeito, aliás, pertencem a oligarquias tanto empresarial quanto política. Assim, compõem uma aristocracia bem típica desta eterna capitania. E é simbólico que esta fatia da elite resida na dupla de prédios de luxo que ameaça o caráter popular do bairro de São José e demarca um projeto de higienização da cidade.

A morte de Miguel é mais um ato de racismo cometido pela elite desta terra de atmosfera colonial. Mesma elite que aposta na fascistização da sociedade e da política quando oportuno. Sem arrodeios, racismo e tirania andam sempre de mãos dadas. E, por isso, se opor ao fascismo é também se opor ao racismo.

Somos antifascistas porque somos de esquerda

Imagem da Revolução espanhola, 1936.
Imagem da Revolução espanhola, 1936.

Tanto fascismo como racismo são males modernos gerados e reforçados pelo capitalismo e pelo colonialismo. Por isso e não por acaso, foram combatidos pelos movimentos de esquerda, que em substância sempre se demarcaram como anticapitalistas e contra as opressões. E faz sentido. Movimentos de caráter socialista que tinham como pauta a libertação ampla e irrestrita do povo e da classe trabalhadora combateram estes males e foram também protagonistas da luta antifascista .

Na primeira metade do século XX, houve forte presença de amplos setores revolucionários e socialistas que se opunham ao fascismo. Em Roma, a “Arditi del Popolo” (Resistência do Povo) foi pioneira na resistência a Mussolini. A “Schwarze Scharen” (Rebanho Preto, ou Tropas Pretas), na Alemanha foi criada para proteger reuniões do sindicato anarcossindicalista União dos Trabalhadores Livres da Alemanha (FAUD) e da Juventude Anarquista. Na Espanha, o feminismo da Mujeres Libres e o sindicalismo da CNT combateram frontalmente as tropas fascistas do general Franco em 1936. No Brasil, o Comitê Antifascista (composto por anarquistas) e a Frente Única Antifascista (FUA) (trotskista), enfrentaram os integralistas durante a década de 1930, com destaque para a batalha de rua conhecida como “A revoada das galinhas verdes”.

O antifascismo, portanto, se originou e continua no seio das lutas socialistas. Vale lembrar que as cores da bandeira “antifa” são vermelha e preta pois representam o sangue dos que lutaram e o luto pelos que tombaram na busca por uma sociedade igualitária. As figurinhas e memes que vêm circulando com outras cores podem mesmo ser muito bonitas e engraçadas, mas também podem servir para transformar uma ideia tão necessária e urgente em mais uma piadinha de internet.

Da história às cores, o antifascismo é de esquerda.

Fascismo e racismo têm de ser destruídos

 

Charge do cartunista Aroeira sobre Bolsonaro e Netanyahu
Charge do cartunista Aroeira sobre Bolsonaro e Netanyahu, a qual foi alvo de processo

Declaramos isto porque a direita, além de nos roubar todos os dias via políticas de Estado, agora quer apagar o que o sangue de milhões gravou nas páginas da História. Fascismo é, em último caso, o nome que devemos dar para as atrocidades que eles defendem. E terrorismo é o que faz o governo Bolsonaro: jogar o povo à miséria no meio de uma crise sanitária mundial. Enquanto nós, antifascistas e de esquerda, integramos movimentos que distribuem mantimentos e kits de limpeza e tentamos, com muito suor e sacrifício, assegurar a resistência da população negra e pobre neste momento tão dramático.

A família de Miguel não deveria estar trabalhando. Ele não deveria estar perdido naquelas torres enquanto patrões com ares de sinhô e sinhá continuam apreciando a vista que privatizaram, como uma afronta. Miguel tombou por racismo. Sua família e milhões de outras estão sofrendo as consequências de ideias e práticas que, estas sim, deveriam ser jogadas no fosso de uma História que não queremos que exista mais.

Antifascismo é romper com tiranos. Antirracismo é romper com os senhores. Nada mais antifascista que apoiar a luta do povo preto.

A resistência é vermelha. A resistência é negra.
Arriba las que luchan! Arriba los que luchan!
Miguel, presente.

Pílulas de História: Antifascismo no mundo e no Brasil

Selo Antifascista
Selo Antifascista com as cores corretas: vermelha e negra
Para quem está se perguntando de onde veio o antifascismo, ou querendo propagar como é desprezível a apropriação “Fascistas Antifascistas“, seguem referências que vão rechear as conversas sobre o tema.

ITÁLIA, 1921: A primeira organização antifascista militante a resistir aos esquadrões de Mussolini foi a “Arditi del Popolo”, fundada em Roma pelo anarquista Argo Secondari no final de junho de 1921, congregando não apenas militantes anarquistas, mas também comunistas, republicanos e socialistas de outras vertentes.

ALEMANHA, 1929: Na Alemanha pré-ascensão de Hitler ao poder, foi fundada uma tropa de ação direta anarquista chamada “Schwarze Scharen” (Rebanho Preto, ou Tropas Pretas, nome dado devido à cor de suas roupas) que tinha por intenção proteger das milícias nazistas as reuniões do sindicato anarcossindicalista União dos Trabalhadores Livres da Alemanha (FAUD) e da Juventude Anarquista. Embora suas fileiras nunca excedessem em geral as centenas, em algumas cidades alemãs eles representavam a principal oposição antifascista durante o período.

ESPANHA, 1936: A Revolução Espanhola, revolução encabeçada pela CNT (Confederação Nacional do Trabalho), um dos maiores sindicatos anarcossindicalistas da História, teve como foco principal combater a ameaça fascista do general Francisco Franco e como finalidade primeira a defesa da Revolução Social e da construção do socialismo libertário. Nas lutas deste período, destacamos também a presença da “Mujeres Libres”, organização de mulheres que teve como uma das principais referências a lutadora e anarquista Lucía Sánchez Saornil.

BRASIL, década de 1930: No Brasil não foi diferente. Na primeira metade da década de 1930, referentes anarquistas da envergadura de Maria Lacerda de Moura, José Oiticica e Edgar Leuenroth, pertencentes tanto ao Centro de Cultura Social de São Paulo (CCS) quanto à Federação Operária de São Paulo (FOSP), construíram algumas das principais organizações de luta contra o Integralismo, como o Comitê Antifascista, em 1933, e tiveram certa participação na trotskista Frente Única Antifascista (FUA), além de forte participação em diversos comícios de rua daquele tempo. Tudo isto culminou na chamada “Batalha da Praça da Sé”, batalha campal que expulsou os integralistas das ruas, também conhecida como “A revoada das galinhas verdes” (a roupa deles era dessa cor), em outubro de 1934, com participação de diversas correntes de esquerda e grande protagonismo libertário, em que pese a presença do sapateiro anarquista João Peres, um dos mais vigorosos combatentes daquela jornada. Já durante o período da chamada Aliança Nacional Libertadora (ANL), em 1935, os libertários aderiram criticamente à entidade, pois mesmo concordando com suas pautas de luta social contra o latifúndio, contra o imperialismo e contra o fascismo, discordavam profundamente de certo culto à personalidade assim como da própria defesa explícita de reconstrução social através do aparelho do Estado presentes no interior do órgão. Em tempo: o Estado sempre foi encarado pelos anarquistas como um aparelho burocrático de dominação e violência de classe.

Referências

BRAY, Mark. Antifa: o manual antifascista. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.

RODRIGUES, André. Bandeiras negras contra camisas verdes: anarquismo e antifascismo nos jornais A Plebe e A Lanterna (1932-1935). Tempos Históricos, Paraná, v. 21, p. 74-106, 2o Semestre de 2017. 

Posicionamento da Coordenação Anarquista Brasileira sobre a pandemia

A MARIA IÊDA ecoa as justas palavras de ordem da CAB neste momento de graves consequências para todos os trabalhadores:

Nenhuma demissão por infecção de coronavírus! Contra as medidas do capital como demissões, cortes de salário etc, usando o vírus como desculpa. Punição aos capitalistas que expuserem trabalhadores ao risco do corona ou demitirem trabalhadores durante a pandemia. Liberação total do trabalho fora de casa e em casa, e abono das faltas para pais e mães com filhos com suspeitas de vírus. Abono de faltas para todos os trabalhadores formais durante a pandemia (do serviço público ou empresas privadas) que não sejam da área de saúde ou de serviços essenciais.O governo orientou a população a ficar confinada em casa como uma forma de evitar que a disseminação do vírus se dê de forma acentuada. Contudo, os trabalhadores precarizados (terceirizados, diaristas; informais, autônomos, caminhoneiros, camelôs etc.) não tem condições de se manter em confinamento, porque dependem dos resultados diários do seu trabalho para subsistir. Suspensão do pagamento de contas (inclusive aluguéis) – proibição do corte de água, luz e qualquer outro serviço mensal – fornecimento de alimentação para qualquer pessoa que precise – interrupção da cobrança de dívidas de quem não tiver condição de trabalhar por conta própria. Garantia de renda mínima para trabalhadores precarizados e fora do trabalho formal. Distribuição de cestas básicas aos trabalhadores que perderam sua renda durante a epidemia. Responsabilização das empresas de aplicativo pelo bem estar de seus trabalhadores. As empresas devem oferecer suporte econômico e de saúde.Congelamento dos preços de produtos de cesta básica apesar da crise econômica. Anulação da EC95 – Teto dos gastos, e não à qualquer corte de direitos dos trabalhadores, que os ricos paguem pela pandemia. Serviço público de qualidade é economia para o povo.Distribuição de álcool gel, kits de higiene pessoal e garantia de distribuição de Equipamentos de Proteção Individual para os trabalhadores de serviços essenciais.Responsabilização das políticas neoliberais dos últimos governos, do congresso nacional e do governo Jair Bolsonaro/Paulo Guedes pelos cortes na área de saúde. Defesa geral da saúde pública (contratações, emergências e aumentos dos leitos): contra o sucateamento que vem sendo promovido e a adoção dessas medidas para a ampliação da capacidade do sistema de saúde; Abertura dos hospitais privados e sua anexação temporária ao SUS ao uso da população durante a pandemia. Contratações emergenciais de médicos, enfermeiras e técnicos.Adoção de medidas de prevenção e de cuidados médicos maiores em presídios e para a população carcerária. Nenhuma suspensão de direitos da população carcerária.Abertura dos hotéis e motéis para população de rua e sem teto, como forma de contribuir para o controle do vírus, e garantir a higiene e acesso a saneamento básico a essas pessoas.Pela paralisação dos locais de trabalho e parada da produção (em todos os setores que não sejam essenciais). Que os/as trabalhadores defendam sua saúde coletiva contra a ganância dos capitalistas! Desobediência civil contra a obrigação de ir trabalhar e gerar lucro aos capitalistas. Estimular a criação de fundos de solidariedade para as redes de convívio, sindicatos, organizações, movimentos, bairros, etc. Rodear de solidariedade os/as de baixo, contra o descaso do governo e dos capitalistas.

Margareth (in memoriam), do Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC), presente, hoje e sempre!

Nós, da Organização Anarquista MARIA IÊDA, só temos a agradecer ao Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC) em nossa caminhada, e a Margareth que incorporava tão bem o espiríto desta casa. Uma de nossas primeiras reuniões foi aqui, neste espaço, e “Margot” estava presente, nos recepcionando e tomando conta deste lugar, que ao nosso ver cumpre muito bem o papel de guarda-chuva dos movimentos sociais da cidade do Recife e de Pernambuco. Margareth, e o MTC, encarnam para nós o espírito de solidariedade, de fraternidade, de ausência de sectarismo, de perspectiva classista, a perspectiva das e dos de baixo, de comunhão acima das diferenças ideológicas. A esquerda e todas/os lutadoras/es sociais só têm a aprender com seu exemplo, e o desta casa. Precisamos mais que nunca estar unidas e unidos, enquanto povo e enquanto classe trabalhadora, especialmente com a ofensiva conservadora vinda do andar de cima.

Honrar a lembrança de Margareth é lutar sem tréguas contra esta pirâmide que nos divide e que a toda hora tenta nos empurrar à desesperança e destruir nossas vidas. É preciso destruir o poder da classe dominante que só reforça o fosso e a desigualdade entre nós e, desde agora, fortalecer os laços que nos fazem irmãs e irmãos. Façamos, mais que a ida de “Margot”, sua vida um exemplo que nos anime a continuar construindo pontes, mais que muros. Pois sua presença era, como dizia aquela música, “uma beleza que é coisa acesa por dentro”, e que jamais podemos “apagá-la pelo sofrimento”.


Margareth, presente, hoje e sempre!

Ou como nós, anarquistas latinamericanos, dizemos:
“Arriba las/os que luchan!”.

 

[CAB] Assassinato Político, Terrorismo de Estado: Marielle Franco, Presente!

DENUNCIEMOS!

Na noite da última quarta-feira, 14 de março, após sair de um debate com outras mulheres negras, na Lapa, Marielle Franco foi brutalmente executada. O motorista do carro em que Marielle se encontrava, Anderson Pedro Gomes, também foi assassinado.

Executaram uma militante, mulher, negra, lésbica, nascida na Favela da Maré, defensora dos Direitos Humanos, vereadora pelo PSOL, e que havia recentemente se tornado relatora da comissão responsável por fiscalizar a Intervenção Militar no Rio de Janeiro.

Há anos Marielle vinha denunciando os abusos da PM do Estado, e estava acompanhando de perto os desdobramentos cruéis da recente intervenção federal-militar. Quatro dias antes de sua morte, Marielle havia denunciado uma ação truculenta do 41 batalhão da PM na Favela do Acari, onde policiais aterrorizaram moradores e moradoras, invadiram casas e jogaram jovens dentro de um valão

Os assassinatos de Marielle e de Anderson representam uma ação orquestrada por um Estado Terrorista e Genocida, que não usa máscaras para dizimar o povo negro e para enviar um recado a todos e todas que se colocam contra o massacre desenfreado promovido nas periferias. Não é coincidência ou um erro da Política de Segurança Pública do Estado a morte da companheira em plena vigência da intervenção federal-militar. O avanço da repressão, através da medida, é que autoriza esse novo e profundo passo do terrorismo de estado. Trata-se de uma ação claramente bem arquitetada: nove tiros contra o veículo, um caso explícito de execução sumária de uma lutadora do povo

O Estado, o capitalismo brasileiro e suas instituições seguem funcionando, com seu perfil histórico de manutenção das desigualdades estruturais e de perpetuação direta ou indireta da barbárie.

Neste momento de dor, tristeza e ódio nos cabe prestar toda solidariedade as famílias de Marielle e Anderson, as companheiras e companheiros do PSOL e a todos e todas que estão diariamente nas trincheiras contra o genocídio do povo negro.

ESTADO TERRORISTA!
PELO FIM DA INTERVENÇÃO FEDERAL-MILITAR!
POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA!!!

MARIELLE FRANCO: PRESENTE!

 

Nota de Solidariedade à Federação Anarquista Gaúcha (FAG / CAB).

Nós, da Organização Anarquista MARIA IÊDA, desde Pernambuco nos juntamos a aquelas e aqueles que neste momento rodeiam de solidariedade a Federação Anarquista Gaúcha (FAG / CAB) e o anarquismo sul-rio-grandense como um todo. Repudiamos as irregularidades, o abuso de poder e a tentativa de criminalização de movimentos e organizações políticas executados pela polícia desta região na última quarta-feira, 25 de outubro de 2017. Episódio no qual invadiram a Ocupação Pandorga da Azenha e o Instituto Parrhesia Erga Omnes, cujo alvo, entretanto, era a FAG e demais anarquistas, conforme alegação propagandeada em veículos de comunicação. Tentaram ainda nos relacionar com o nazismo e imputar à nossa ideologia práticas terroristas, neste caso utilizando como provas, por exemplo, garrafas PET contendo material reciclável, alegando que serviriam para a confecção de coquetéis molotov, além de literatura(!). Os procedimentos e declarações correram sob o mando e publicização do delegado Paulo César Jardim, da 1ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre.

Neste momento, onde a classe trabalhadora vem dia após dia sendo atacada e perdendo direitos conquistados historicamente, onde o povo negro vem sendo morto nas favelas, onde os povos originários são sistematicamente dizimados pelo latifúndio, onde o fascismo e grupos de extrema-direita de toda ordem vêm espalhando discursos de ódio, onde a patronal festeja seu avanço em cima do sofrimento de muitos, é necessário que não deixemos passar mais este absurdo, desta vez a uma organização reconhecidamente de esquerda, a FAG. Ações estas, todas elas, sob a assinatura e consentimento do Estado. Sendo assim, qual lado demonstra na prática ser o terrorista?… O nosso que não é.

Nós, da esquerda, do povo organizado e todas e todos que estão no andar de baixo do poder, devemos nos juntar e dizer em alto e bom som que “Protestar não é crime!”, que “Organizar-se não é crime!”, que “Ser de esquerda não é crime!”. As atitudade irresponsáveis das forças de segurança gaúcha apontam para abertura de um precedente perigoso que pode afetar a todos os setores progressistas da sociedade brasileira. Pois hoje somos nós, os anarquistas. Amanhã serão outros setores da esquerda combativa, assim como sindicalistas, militantes de causas étnicas, de gênero, estudantes e toda uma infinidade de lutadoras e lutadores sociais.

Nossa ação deve ser firme, assim como nossa solidariedade. A ação das forças repressoras intenta nosso recuo, mas não apenas o recuo de um setor da esquerda ou de um lugar do país. Intenta o recuo de todos nós que temos em nossas bocas, corações e mentes o porvir de um sociedade livre e emancipada. Querem o recuo de nossas lutas por direitos fundamentais. Almeja que continuemos sobrevivendo sob a ordem e a violência da classe dominante, e não realmente vivendo sob nossa própria ordem e soberania.

Não, nós não vamos nos desmobilizar, nós não vamos recuar!

Terrorista é o Estado!

Contra a dominação, o Poder Popular!

Ser de esquerda não é crime, ser anarquista não é crime!

Não se ajusta quem peleia!

Anarquismo e machismo?

Anarquismo e machismo?

Uma exposição dos nossos processos e agressões machistas no campo libertário/anarquista de Recife.

Anarquismo e Machismo. Por que quando estas duas palavras andam juntas, chocam tanto? Porque não se espera de pessoas que ideologicamente afirmam ser contra todo o tipo de dominação a repetição de comportamentos machistas. E pior: a ausência de qualquer tipo de autocrítica no momento em que são questionados. É isto que, infelizmente, temos visto como padrão de comportamento nos coletivos da cidade. Com este documento, pretendemos deixar claro os precessos vividos por companheiras do nosso coletivo e refletir sobre estes processos, que coincidiram temporalmente com o recente caso do coletivo LAMA. É uma denúncia que pretende contribuir para o enfrentamento do machismo dentro do nosso campo. Para estimular a criação de mecanismos que cobrem posicionamentos, induzam à autocrítica e deixem claro que a luta contra o machismo não está desconectada da luta por uma nova sociedade.

O caso do Núcleo Negro: por que rachamos?

Nossa organização é fruto do racha entre companheirxs que compunham o Núcleo Negro. Os motivos deste racha não foram, como comumente se vê na esquerda, divergências ideológicas, teóricas ou estratégicas. Divergências deste tipo são facilmente problematizadas em espaços públicos, pois envolvem debates que se desenvolvem nele. Companheiros que divergem teórica ou estrategicamente ainda conseguem conviver nos mesmos espaços, mesmo com as diferenças de concepção.

O nosso caso foi diferente. Envolveu falta de solidariedade e de acolhimento. Foi um caso de reprodução de machismo.

Em 2013, uma companheira então do Coletivo Núcleo Negro sofreu uma ameaça de morte por parte do próprio pai. Como em geral é feito em casos de ameaça a mulheres, houve a necessidade de providenciar mudança de endereço, ajuda financeira e, acima de tudo, acolhimento das pessoas próximas para confortar psicologicamente a agredida. Ou seja: procurou-se estabelecer uma estrutura que impedisse o contato entre agredida e agressor.

No entanto, 2 membros do Coletivo Núcleo Negro se eximiram da participação neste processo. Após alguns contatos em que eles não concordavam com as decisões da própria agredida sobre como iria gerir sua própria vida, eles não fizeram mais contato. Sequer ajuda financeira foi providenciada, mesmo quando pedida por telefone. Isto resultou no afastamento quase compulsório entre agredida e coletivo, o que a levou a ter que resolver sua vida pessoal e política sem a participação da maioria dos membros do coletivo.

Ou seja: não houve solidariedade do coletivo. O apoio esperado dos companheiros de luta, o acolhimento desejado para acalmar o psicológico fragilizado sequer foi esboçado. Por puro orgulho, os dois companheiros passaram o resto do ano inteiro sem fazer nenhum tipo de contato sequer, coisa que antes acontecia semanal ou diariamente.

Ainda tiveram a coragem de mandar email, via coletivo Difusão Libertária, convidando para a organização da Feira de Cultura Libertária de 2013, como se houvesse quaisquer condições de articular um evento deste porte com pessoas que, durante tanto tempo e num momento tão delicado, fingiram que a companheira não existia. Ter fundado o coletivo e militado nos mesmos espaços por quase 5 anos não servia de nada, pois a presença dela nos mesmos espaços era ameaçadora.

Pessoas que se diziam companheiras de luta, parceiras na construção de bases para uma nova sociedade, simplesmente SUMIRAM no momento em que era mais necessária sua ajuda. E não só: se negaram a fazer qualquer tipo de autocrítica sobre suas posturas; como se suas atitudes tivessem sido de solidariedade e apoio. Não é isso que se espera quando se recebe uma ameaça do próprio pai. Ser sistematicamente IGNORADA é exatamente o contrário de ser acolhida. A atitude destes machos apenas duplicou os efeitos do machismo familiar e o trouxe direto para o coração de qualquer militante: a política.

Mas a completa falta de ética e machismo não param por aí. Porque, além de egoísmo e falta de entendimento sobre o que significa acolhimento e solidariedade, estas duas pessoas são coniventes ou protagonistas de comportamentos pessoais e políticos de uma crueldade que suas posturas de discrição sobre as vidas pessoais disfarçam muito bem.

O caso do coletivo Difusão Libertária: machismo, deslegitimação e manipulação

Abaixo, segue o relato de companheira que fez parte do coletivo no qual também militam dois integrantes do Coletivo Anarquista Núcleo Negro. A carta descreve comportamentos pessoais absurdos e manipulativos, principalmente por parte de um dos integrantes do coletivo Difusão Libertária que, à época, era seu companheiro na vida pessoal.

“Depois de aproximadamente dois anos de relacionamento e longos meses de tortura psicológica, uma das maiores dificuldades foi conseguir conversar sobre tudo o que acontecia na casa na qual eu morava com a figura em questão, no âmbito privado, longe dxs amigxs em comum, longe do underground (ele faz parte da banda Nômades) onde ele tinha a legitimidade dele, longe dos coletivos dos quais fazíamos parte respetivamente.

Sendo uma pessoa reservada, eu não queria me expor. Não queria colocar o que estava acontecendo comigo, como mais um tema de conversa de mesa de bar. Não queria permitir que me tornassem em alvo de fofocas para me julgar e me chamar de todos os nomes. Porque eu sabia que ninguém ia acreditar, ou que iam justificar ele, ou que apenas ignorariam a situação. Eu tentei resolver sozinha.

Como meu objetivo continua sendo o de não me expor, eu não vou usar esse meio como desabafo, escracho ou parecido. A situação presente me faz considerar necessária a explicação e uma mínima apresentação dos fatos, que dizem muita coisa, e de forma claríssima, o tipo de pessoa e de macho que ele é.

Tentei colocar os acontecimentos em ordem cronológica por tanto os primeiros são de ordem íntima/pessoal/de relacionamento. Eles afetam os seguintes. A ordem está no entanto alterada pois tentei “tipificar” os tipos de agressão psicológica e comportamentos demonstrados.

O PRIVADO É POLÍTICO

O privado é político foi uma frase que nunca fez tanto sentido na minha vida a partir do momento em que ele começou a levar os ciúmes e atidudes anti-éticas ao âmbito do coletivo no qual militávamos juntxs: o Difusão Libertária. Comportamentos já clássicos aos quais nós mulheres devemos nos confrontar de forma constante como: interromper de forma repetida e limitar/impedir/menosprezar/desvalorizar falas ou intervenções, uso da voz para passar por cima e abortar pensamentos, etc. Na época eu e outro integrante do coletivo, estávamos indo semanalmente no bairro da Guabiraba tentando dar continuidade a uma atividade que tinha acontecido lá e ao jornal que o DL tinha lançado com outros coletivos. Já que ele não podia ir, claro que a ação era alvo de ciúme. Numa reunião, depois de vários encontros na Guabiraba, ele simplesmente boicotou e fez uma fervorosa intervenção que deu fim às atividades lá. Não houve consenso (pois eu mesma me opunha já que não tinha proposta de outra atividade que justificasse se retirar dessa), nem votação e foi apenas uma decisão arbitrária que eu vi como simplesmente BOICOTE.

Recalque e arrogância: a questão da minha nacionalidade. Por não ser brasileira, eu sempre fiz questão de, a partir disso, reconhecer tanto a minha ignorância em relação a vários temas, mas também tentar contribuir na discussão em relação a experiências de militância em outros lugares, ou até leituras que não se referem ao Brasil. Sempre enxerguei isso como uma riqueza para o debate pois é a partir disso que eu me posiciono e acredito poder aprender a partir dxs outrxs. Ter várias origens foi sempre questão de destino e consequências da vida (família exilada de vários países) e também de sorte. Li bastante sobre a Comuna de Paris porque meu pai é francês e cresci no sistema educativo francês, li bastante sobre a Guerra Civil Espanhola porque meus bisavós são sobreviventes da guerra, li bastante sobre a ditadura de Pinochet porque quase a totalidade da minha família foi exilada. Tentei tirar aprendizado de todas as oportunidades que tive e do sofrimento que sempre perseguiu os meus antepassados. Mas não perdoei as várias vezes que disseram que eu me achava superior por ser de fora, apenas por estar opinando de um tema que eu conhecia mais à fundo, frente a pessoas que quase não tinham leitura sobre isso. Na mesma noite do mesmo evento no qual Alexandre Samis veio para discutir o livro “Negras Tormentas” – que ele não leu, pelo menos para o evento – ele simplesmente me agrediu verbalmente no momento da discussão pós-evento já que eu “me achava demais por ser de lá”. Eu estava apenas dizendo que a Comuna de Paris era sim um evento relevante e de referência para a militância francesa anarquista. Em maio de 2012, quando, no meu limite emocional, precisei me afastar do Brasil (e dele) por alguns meses, ele foi recuperar as coisas dele na minha casa (já morávamos separados fazia algum tempo) e continuou com o mesmo discurso: que eu adorava dizer que era de fora pra figurar, pra chamar a atenção, pra dizer que eu sabia mais do que os outros. A minha interpretação? Inveja, recalque, falta de humildade na hora de reconhecer tanto o que sabe como o que não sabe, falta de capacidade de aprender das outras pessoas. Eu nunca me coloquei como superior, e todxs xs companheirxs que já militaram comigo bem sabem que ao contrário, ser de fora sempre foi pra mim quase uma limitação, por reconhecer o grau de ignorância que eu tinha em relação a tantos temas que têm à ver com o Brasil. Eu NUNCA pedi nem vou pedir desculpas pelas minhas origens e me parece no mínimo lógico que uma pessoa que se coloca numa perspectiva internacionalista não dê legitimidade alguma a uma pessoa de diferente origem. Por outro lado, eu nunca usei nem usaria isso como argumento de autoridade. São conhecimentos e vivências diferentes, ponto.

MANIPULAÇÃO

Eu tinha expressado aberta e claramente a dois integrantes do Núcleo Negro, em conversações informais, que eu tinha interesse de fazer parte do coletivo, na época na qual ele ainda estava em processo de formação e leituras. Ao morar com companheira que integrava a organização, soube que isto nunca tinha sido repassado. Ainda mais, soube depois por companheira do CAZP que ao ser sugerido que me chamassem, ele teria dito que por ser de fora, de outro país, “eu não tinha noção de compromisso”. Voltamos ao ponto anterior.

Nunca houve convite nenhum para atividades da Resistência Popular mas, quando fui morar com uma companheira então do Núcleo Negro, e eu já tinha cortado todo contato com ele, ele me chamou para uma atividade. O motivo claro foi expressado: eu poderia dirigir – e não havia quem dirigisse, e ele não ia se não fosse de carro. Deixei claro que eu só faria parte de alguma atividade militante se houvesse interesse MILITANTE em me convidar.

Com base em minha experiência no Chile, com um companheiro começamos com a Muralista Palafita, na comunidade do Bode. Ganhou muita visibilidade em pouquíssimo tempo, pessoas se uniram e inclusive saiu uma matéria num jornal local contra a nossa vontade pois nos recusamos a dar entrevista. Pessoas começaram a demonstrar interesse e ele entrou em contato comigo para que déssemos uma oficina na RP. Em acordo com os outros participantes da Muralista – que conhecem apenas parte da história e da minha vivência – dei uma resposta negativa e deixei claro que a Muralista nunca participaria de nada comum com ELE, e que ele não seria nunca bem vindo nos espaços/coletivos nossos. Isto foi no mês de janeiro de 2014. Pouco tempo depois, ele entrou em contato com outro companheiro perguntando a mesma coisa, e pedindo “dicas” para fazer a mesma atividade. Ou seja: passando por cima da minha negativa, ele apenas não aceitou a opinião – que era do coletivo – pois vinha da minha boca. No entanto, conversando com pessoas da RP, soube que nunca se conversou fazer nada de muralismo. Ou seja: ele falava no nome do coletivo, mais uma vez, sem ter-se articulado nem sequer internamente, pois os outros integrantes não sabiam nas manobras e das comunicações que ele estabelecia no nome de todxs. E de novo, isto para estabelecer contato comigo e se meter nas atividades nas quais eu estava envolvida.

ATIVIDADES FEMINISTAS

Uma das ações realizadas pelo DL foi o Cine Feminista, iniciativa de uma companheira de Natal, e nós reproduziríamos o evento aqui em Recife. Quero comentar aqui jornadas em especifico que correspondem à época na qual a violência psicológica estava particularmente presente. Uma delas foi realizada no Sebo da Torre. Durante o debate, ele se manteve totalmente alheio à atividade (ficando no térreo, quando a atividade acontecia no primeiro andar) se mantendo totalmente fora da própria discussão que envolvia todas as acusações que eu tinha contra ele: de ser machista e de estar se tornando igual ao próprio pai. Outro dos Cines foi organizado na Universidade Católica, onde eu estava cursando os primeiros meses de faculdade na época. Articulei o evento com a direção, escolhi os filmes, e deixei claro durante as reuniões do coletivo que eu não tinha capacidade emocional de dar a cara e de articular debate nenhum, e que eu apenas queria articular a parte da logística, na qual eu estava já fazendo praticamente tudo. Na hora do debate, ninguém se colocou para articular, e o argumento usado – por todos os integrantes – foi que eu tinha que ir já que eu era a única mulher. No entanto, era o coletivo quem estava organizando o evento. Sem comentários. Isto foi apenas a gota d’água numa série de pisadas que eu vinha levando por parte do coletivo que passava totalmente por cima das minhas posturas e condições. E ainda fui criticada por ele “por não ter compartilhado o evento no facebook” – apesar de saber muito bem que estar me envolvendo nesse evento, COM ESSAS PESSOAS, já estava sendo um grande esforço por minha parte, uma grande tentativa de “acreditar no debate e nas mudanças e posturas dentro do coletivo”. Mas para o coletivo, organizar o Cine Feminista sempre foi – e me arrependo de não ter percebido isto antes – uma forma de ter uma mulher no coletivo como “vitrine” que escondia os comportamentos nojentamente machistas dos integrantes. Imediatamente depois do evento, saí do coletivo, cortei contato com as pessoas envolvidas e marquei uma cruz definitiva em cima do DL.

Quase dois anos depois, em outubro de 2013, aconteceu a Feira de Cultura Libertária. Ele me chamou, mais uma vez, no nome do coletivo, a articular a roda de discussão sobre Feminismo e Machismo no meio libertário. Fui. Com dois pés atrás, mas fui. Não só isto não tinha sido articulado previamente – pois duas outras pessoas estavam lançando uma cartilha durante a roda e eu não tinha sido informada disto -, mas ele ainda chegou no meio da roda, querendo que eu anunciasse que o DL recolheria textos sobre questões de gênero escritos por mulheres, para publicá-los. Eu disse que eu não fazia parte do coletivo e que eu não faria esse anúncio, que alguém do coletivo deveria fazê-lo, e que eu, TALVEZ, poderia ser um apoio. Me encontrei numa situação na qual queriam me colocar “em cima da hora”, sem possibilidade de escolha, e mais uma vez sendo USADA como vitrine para o feminismo já que o próprio DL sempre teve a INCAPACIDADE de se abrir ao diálogo e à AUTO-CRÍTICA. Ele foi quase fuzilado ao fazer o anúncio e consequentemente eu também, por estar envolvida. A minha avaliação? Além de querer me usar novamente como vitrine, queriam sujar a minha imagen com as bixas do rolê feminista e tirar toda a minha legitimidade adquirida com a minha própria militância.

Em 2014, recebi uma ligação de um terceiro membro do coletivo. Ele já não dava a cara para ligar diretamente, fazia anos que eu não falava com outro dos membros, então mandaram outra pessoa me ligar. Queria que eu animasse a discussão do Cine Feminista 2014 que aconteceria numa ONG local. Me neguei, e também me neguei a dar o contato (que me pediram) de uma companheira feminista. Furiosa, mandei o seguinte e-mail para o coletivo:

Sobre os relatos da minha vida pessoal, posso dizer que entre o ano 2011 e 2012, todos os acontecimentos me levaram a um mal estar profundo, que me levou a perder 12 kg em 5 meses, a perder a fome, sofrer de insônia, perder toda capacidade de concentração o que me levou por sua vez a perder meu emprego, e a uma situação grave de depressão. 4 exames de gravidez de falso-positivo em março de 2012 e o fato dele primeiro não querer saber da situação, e de depois dizer que era uma forma de chantagem emocional, me fizeram perder o controle e tive que me afastar de Recife durante alguns meses para me recuperar. Me afastei da militância durante um ano e meio até conseguir construir uma coisa A PARTE, na qual ele ainda tentaria se fazer presente. A série de coisas que aconteceram não podem de forma nenhuma serem justificadas por ser um “relacionamento conturbado”, que é a expressão utilizada hoje em dia por ele para explicar o profundo ódio que sinto por ele.

O que aconteceu realmente. Tudo o que me esconderam. O que mais me dá pena, é que na época em que começamos o relacionamento, várias mulheres que tinham ficado, militado, ou as duas coisas, com ele, tinham me advertido. Mas sem dar detalhes. Ele, por sua parte, é extremamente fechado em relação ao seu passado e vida pessoal. Eu não tinha dimensão do problema.

Se acreditamos que outro mundo é possível, que outras relações são possíveis, não podemos ser coniventes, ficar alheios, ser indiferentes, diante das opressões que acontecem na nossa frente.”

Sobre acolhimento ou a falta dele

No caso do coletivo anarquista Núcleo Negro, não houve criação de uma estrutura de acolhimento à companheira agredida. Houve conivência e omissão. Todo o tipo de subterfúgio foi utilizado para justificar o descaso dos machos com a agredida. Desde argumentos de estrutura interna do grupo (“as demandas foram nos atropelando”) até um suposto “medo de invadir o espaço da companheira”. Argumentos de um cinismo e desfaçatez quase inacreditáveis.

No caso dos mesmos companheiros, em especial um deles, no coletivo Difusão Libertária, houve a nojenta deslegitimação, manipulação e tortura psicológica com uma das companheiras. A companheira agredida tinha, também, um relacionamento com um dos membros do grupo. Este deixa TRANSPARENTE o quão grave é a estratégia manipulativa utilizada por machos para deslegitimar politicamente as mulheres nos espaços de militância. E o quanto esta deslegitimação é ainda mais perversa quando se trata de suas companheiras de “cama e mesa.”

Para ambos os casos, a insegurança sobre como fazer a denúncia e o próprio medo de a exposição pessoal não ser suficiente para ter apoio foram alguns pontos que nos levaram a titubear. O processo de decisão sobre como explicitar estes comportamentos e fazer as denúncias foi doloroso e chegou até a nos magoar mutuamente. Saímos feridas neste processo. A inexperiência política em problematizar estes casos nos fez errar. Ficamos inseguras. Individual e coletivamente. Publicamente expomos a morosidade da exposição deste caso e a mágoa causada nas companheiras envolvidas.

A publicação deste texto e a autocrítica em relação aos nossos processos é uma tentativa de tomarmos uma posição de alerta quanto a estas questões, na esperança de tentarmos contribuir para a efetivação de espaços políticos seguros para mulheres na cidade.

Lutar contra o machismo é construir Poder Popular.

Machistas não passarão.

Organização Anarquista Maria Iêda.

Eleições: A saída à esquerda não é nas urnas, mas nas Ruas!

Elementos da conjuntura eleitoral – Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

O contexto de eleições em nosso país precisa ser analisado a partir de alguns elementos da conjuntura brasileira que procuraremos apontar na presente análise. São aspectos que acreditamos relevantes e em certa medida condicionantes de uma compreensão mais rigorosa das eleições e de algumas conclusões libertárias que no final apontaremos.

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Quando o “Ganha, ganha”, pode se tornar o “Ganha, perde”

O Partido dos Trabalhadores já governa o país há 12 anos, desde 2002. Sua fórmula tem sido a de fortalecer o financiamento aos grandes capitalistas “tupiniquins”, bem como a expansão do crédito pessoal, que por tabela fortalece o mercado consumidor. O governo busca fortalecer os grandes capitalistas e, de quebra, cria empregos e melhora as condições de consumo da massa trabalhadora. Para completar temos ainda programas sociais que atendem a massa, a exemplo do Bolsa Família – “36 milhões de brasileiros foram tirados da extrema pobreza” (DILMA, 2014) e o Mais Médicos – que segundo o governo cobriu 50 milhões de pessoas desassistidas. Toda esta forma de governar tem sido sintetizadas por nossa corrente, no bojo da CAB, como o neodesenvolvimentismo, porque representa uma nova busca pelo desenvolvimento de alguns setores da economia como sua inserção na economia internacional por meio da injeção de recursos públicos (isto é mais intervenção que no período neoliberal), todavia com certa repaginação, pois não podemos comparar essas com as políticas desenvolvimentistas de outrora, afinal o Estado entra mais como financiador do que como agente direto do desenvolvimento, nesse sentido privatizações e parcerias público privadas vigentes da época neoliberal se mantém, quando muito ganham outra roupagem.

O que temos visto, nos últimos anos, são sintomas de certo “cansaço” deste modelo de desenvolvimento e crescimento. Falamos de alguns sinais desse esgotamento em nosso último documento:

“Em relação ao desenvolvimento capitalista, o PT atingiu alguns índices que permitem certa estabilidade e crescimento, como os 4,6% de desemprego, que permitem certa fluidez à economia; afinal, o consumo de massas é um de seus carros-chefes. Todavia, a não distribuição real de renda, ou seja, a socialização da miséria, gera índices de endividamento preocupantes, que prometem desacelerar o consumo de massas e o mercado imobiliário, com um grande risco desse endividamento se tornar inadimplência. As grandes obras e os megaeventos têm prazo de validade, e, quando finalizados, prometem desacelerar ainda mais a economia. O agronegócio, como apontado, está sujeito ao mercado internacional e, por isso, sensível às oscilações econômicas externas. Resta saber, também, até que ponto os bancos públicos suportarão manter o crédito no mercado, sem que o Estado se endivide ou tenha suas contas pressionadas, em especial no que tange aos programas sociais.
Como vemos, temos um modelo econômico que está distante de uma perspectiva transformadora; ele não pode ser assim caracterizado sequer em uma perspectiva reformista. Mesmo no que diz respeito ao equilíbrio capitalista, ele parece estar sustentado em “bases” instáveis, sujeitas a desequilíbrios. ”(CAB, 2014)

Sem ser taxativos e sem buscar fazer do alarmismo e catastrofismo elementos da análise, temos de ficar atentos a alguns movimentos do capitalismo brasileiro, pois certos sintomas de desaceleração e certa instabilidade econômica despontam na realidade, e sabemos os impactos que têm na conjuntura política do País.

O próprio governo de turno (Dilma-PT) , e seu programa eleitoral apontam que seu pilar é, e continuara o mesmo

(…)A competitividade produtiva será atingida por meio dos investimentos em produção e consumo de massa, investimentos em infraestrutura social e econômica, na construção de um Brasil sem Burocracia e nas áreas de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação, construindo uma sociedade do conhecimento.”(DILMA, 2014)

Deste modo, não podemos ser otimistas, no sentido de esperar algo diferente nos próximos anos, a despeito de certa desaceleração da economia, teremos mais do mesmo. O próprio governo admite que o PIB que tinha a expectativa de crescimento de 2,5%, deve crescer no máximo 1,8%, o mercado e instituições financeiras apontam para 1,5% (os mais pessimistas instrumentos financeiros 0,52%), sendo que o PIB teve um crescimento de 1,03% no período da crise mundial (2009), como vemos estamos com nossa economia com taxas muito próximas do período de recessão. Claro que esta é uma tendência global, a Economia mundial deve ter expansão de 2,8% este ano. Mais pessimismo se aponta com a dita “recessão técnica”, que aponta para encolhimento da economia do Brasil no primeiro trimestre de 2014, de menos 0,6%. A expectativa de crescimento do Banco Mundial para os países em desenvolvimento em 2014 foi reduzida para 4,8%, ante uma expansão de 5,3% esperada no relatório divulgado pelo órgão em janeiro. Todavia, há de se destacar que dos BRICS o Brasil é melhor somente que a Rússia, nesse sentido passa a ter um desempenho econômico fraco mesmo quando comparado com países de mesmo perfil.

Com todos estes resultados preocupantes, o que vemos nas campanhas, e no próprio programa do PT, é a reafirmação do que foi feito e alguns “avanços” que serão feitos na mesma direção. Parece que viveremos do passado nestas eleições, afinal seus principais adversários são o PSDB, que representa o que de pior temos na política, e o PSB, uma “terceira via” que não traz nada de novo e já aponta que governará em prol do capital. Deste modo não podemos esperar mudanças vindo destes setores, ao menos mudanças positivas no que se refere a população e a economia do País. Assim, o processo eleitoral tem pouco a oferecer nesta área, de um lado o PT que promete reeditar aquilo que vemos patinar, do outro aqueles que governaram o País por anos, e tem governado alguns Estados (exemplo do Paraná, estado que Richa quebrou literalmente, o Estado está sem empréstimos federais e sequer tem dinheiro para abastecer carros oficiais).

Os principais setores da economia nacional sofrem para crescer. O setor automobilístico enfrenta significativa recessão, a produção de veículos é a principal queda na indústria, aponta IBGE no mês de maio de 2013. Em comparação com maio de 2013, setor de automotores recuou 20,1%. A produção industrial registrou terceira queda seguida em maio, com -0,6%. A venda de veículos no primeiro semestre de 2014 caiu 7,33% em relação ao ano passado, aparecendo como pior resultado desde 2010. O varejo tem desacelerado, e dos 8,4% do ano de 2012 (crescimento foi de 2004 a 2012), tem como estimativa para 2014 4%, segundo Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). No setor imobiliário vemos significativa desaceleração este ano também, se em 2013 o financiamento imobiliário aumentou 34% em relação ao período anterior, este ano vemos acrescidos no setor meros 7%, a estimativa de crescimento é de 15% (menos da metade), de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). Se o consumo de massa é um dos pilares para o crescimento, tudo indica que está em um processo de decadência, pois os principais setores se encontram em franca desaceleração, deste modo entramos em um momento de enfraquecimento da economia. Tal queda nas taxas de crescimento são reflexos dos índices de endividamento da população, pois na medida em que o crescimento e aquecimento do mercado é fruto da expansão de crédito, e não dos ganhos reais, a tendência que se confirma é o endividamento das famílias. Segundo Roberto Luis Troster, ex-economista chefe da Federação Brasileira de Bancos, a situação em 2013 era a seguinte: 63% da população brasileira possui algum tipo de dívida e 20% de contas atrasadas; 76% destas pessoas têm dívidas no cartão de crédito e o juro médio desse tipo de conta, no Brasil, atualmente se encontra no patamar dos 130%. A inadimplência ainda era baixa, fechou 2013 em 2,33%. Recentemente, um dado no mínimo preocupante revelou que 57 milhões de brasileiros já se encontram inadimplentes, destes 60% dos endividados têm contas atrasadas que superam toda a renda mensal. Outro dado aponta que 53% das pessoas com dívidas possuem até duas contas não pagas no prazo. É necessário observar que este número representa que, do total da população brasileira com 18 anos ou mais (144 milhões de pessoas), cerca de 40% estão inadimplentes. Um cenário de crise não se estabelece devido ao desemprego baixo que gira, de acordo com dados do IBGE entre 4,6% e cerca 5%, que garantem um cenário de pleno emprego.

Como podemos explicar esta desaceleração? Bom já havíamos apontado em uma análise anterior que este modelo de crescimento não era sustentável, em seu sentido de gerar um ciclo de crescimento. Pois nota-se que desde que o PT assumiu, colocou em curso seu projeto neodesenvolvimentista, baseando-se no aumento da oferta de crédito e não da distribuição de renda, o que logicamente leva a população ao endividamento, estagnando, ou ao menos diminuindo a capacidade de crescimento. Anteriormente já havíamos levantado dados recentes que apontam a situação do aumento dos salários no Brasil

“No que tange ao ganho real nos salários, este é muito pequeno no atual cenário. Apesar de que 84,5% das categorias que são monitoradas pelo DIEESE tiveram aumentos acima do INPC, apenas 0,6% receberam aumentos acima de 5%. A maior fatia recebeu entre 0,01% e 1%, somando 34,8% destes 84,5%. Nesta mesma pesquisa, constata-se que 64% tiveram um aumento da ordem de 0,01% a 2% acima do INPC. Em 2012 houve a maior taxa de aumentos acima de 5% do INPC. Isso atesta que o aumento no consumo se deu com a ampliação do crédito e corrobora a afirmação de que não há uma distribuição de renda significativa no país.” (CAB, 2014)

No que se refere o panorama da distribuição de renda encontramos também um quadro não muito positivo:

Enquanto isso, a maior parte da população brasileira continua vivendo com menos de um salário mínimo: trabalhadores com 15 anos ou mais de idade que ganham menos de um salário mínimo somam 26,080 milhões, isso representa que 43% da famílias brasileiras apresentam uma renda per capita inferior à um salário mínimo. (2)

Estes dois elementos quando se defrontam, demonstram a crueldade da realidade brasileira: enquanto 124 pessoas concentram mais de 12% do PIB, 26 milhões de trabalhadores vivem com menos de um salário mínimo por mês.

Mas para manter a aparência de “país rico”, o governo e a mídia disseminam o conceito de “classe média” como se houvesse mesmo, na prática, esse segmento que se diferencia dos pobres e miseráveis. Para o governo, essa “classe média’ abrange a população com renda per capita de R$ 291 até R$ 1019, ou seja, mais da metade da população brasileira pertence à classe média. Mas na prática, o que isso significa? O governo está mesmo redistribuindo a riqueza? Sim e não. Esta renda média está muito abaixo daquilo que o DIEESE aponta como necessário para se ter acesso aos direitos fundamentais, a instituição estipula que o salário mínimo brasileiro deveria ser de 2.621,70 R$ (2013). Percebe-se que, na realidade, o que acontece é que o governo redistribui a miséria. Segundo o IPEA, a pobreza reduziu no brasil de 32,4% para 22,6%, incluindo mais essa parcela da população na classe média, mas os mais ricos continuam da mesma forma, acumulando. Vejam: 1% da população mundial detém 43%da riqueza do globo, e 43% detém 2% da riqueza. (Banco Credit Suisse); apenas 6% dos brasileiros detém meios de produção próprios (IPEA); ou ainda: 1% dosproprietarios de terra brasileiros detém 45% da terra, 90% dos proprietários detém 20%(INCRA). Assim o que aparece como distribuição de riqueza nas afirmações do governo, na verdade se configura como uma dispersão da renda dos mais pobres, enquanto a acumulação dos mais ricos mantém os mesmos padrões, ou mesmo se intensifica, afinal com o crescimento da economia brasileira não contemplando a desconcentração de riqueza, acaba por estes segmentos se afastarem cada vez mais, afinal o crescimento dos mais ricos é assombrosamente maior. (CALC, 2013)

Como vemos, para além da distribuição de riqueza relacionada à população mais pobre, por meio de programas sociais (cujo o carro chefe é o bolsa família), não existe uma desconcentração real de riqueza, o que impede um ciclo contínuo de crescimento.

Em contra partida, os setores dominantes sentem a desaceleração, com um crescimento menor e com menores lucros (menores porque não batem recordes). Entre os bancos vemos na lista de maiores lucros, o Banco do Brasil, um banco público com lucro líquido de R$ 15,75 bilhões em 2013, ficando em primeiro lugar. O que demonstra que a oferta de crédito ainda é responsabilidade do Estado. Na sequência vem o O Itaú Unibanco com lucro líquido contábil de R$ 15,696 bilhões, acima do resultado de R$ 13,594 bilhões registrado um ano antes. Em terceira posição está o Bradesco, com um lucro líquido contábil de R$ 12,011 bilhões em 2013, valor acima dos R$ 11,381 bilhões obtidos no ano anterior. Não à toa vemos a pressão para o aumento da taxa Selic, a taxa básica de juros, pois como vemos tais bancos garantem um bom percentual de seus lucros no Brasil. O Santander, quarto nesta mesma lista, garante quase ¼ de seu lucro somente no Brasil. As classes oprimidas veem seu poder de compra diminuir com seu endividamento e com a inflação corroendo-as. A resposta para conter a inflação tem sido aumentar a taxa de juros, assim de um lado ou de outro quem “perde” é a população (com a alta da inflação ou com a alta dos juros), afinal investir no aumento da oferta não é do interesse dos grandes capitais financeiros. Pois no mesmo momento que governo declarou a diminuição do crescimento do PIB, alertou para um aumento na estimativa da inflação para o ano. Mesmo com desaceleração em junho, ainda batia o teto (de 6,5%) atingindo um acumulado de 6,52% nos últimos 12 meses. Em julho sofre ligeira desaceleração e se manteve por pouco, mas ainda acima do teto 6,51%.

Como vimos o governo continua apontando como modelo de crescimento a expansão de programas sociais, infraestrutura e a tal “competitividade produtiva”. Não vemos nenhum apontamento que o governo ira radicalizar na política de distribuição de renda ou ainda no investimento em setores estratégicos para fortalecer a indústria nacional realmente. O que vemos é que temo uma equação complexa a resolver, como manter o crescimento no consumo sem aumentos reais na renda? Como ampliar ainda mais o consumo e frear a inflação, se para conter a inflação o governo aumentou a taxa de juros para frear um pouco a procura? E mais como modernizar a indústria e o parque produtivo sem investimentos massivos na área ciência e tecnologia (o ápice de investimento é no ciência sem fronteiras, e não na montagem de equipamento em de C & T em solo nacional)? Como segurar capitais sem um disciplinamento dos mesmos (isto é, regulação, pois não há nacionalismo que faça capitalistas segurar o dinheiro em nossa economia)?

É inviável pensar em como atrair mais capitais produtivos para o País com uma taxa de juros de 11%, que favorece o capital financeiro, não à toa a venda de títulos públicos (títulos de dívida) bateu o recorde de R$ 57,97 bilhões. Não à toa a dívida pública volta a crescer 3,4%, chegando aos 2,12 trilhões. Não à toa vemos que as previsões para indústria são de encolhimento de 0,67% (pesquisa Fócus) neste ano de 2014 (a três meses a indústria encolhe). Entre os BRICS deixamos de ser a 4º economia com mais investimentos para passar a ser a 7º.
Qual solução apresenta o Governo? Por óbvio o aumento do crédito, a exemplo inverso do crescimento econômico os desembolsos do BNDES sobem 35% no 1º bimestre. No período, desembolsos chegaram a R$ 28,5 bilhões. Desembolsos para o setor de infraestrutura tiveram aumento de 82%, não à toa vemos que estes são os setores que mais financiam campanhas eleitorais. Não por acaso as contas do governo têm pior resultado para o 1º semestre em 14 anos.

Em junho, houve déficit de R$ 1,94 bilhão, pior resultado desde 1997. A arrecadação tem o pior crescimento desde 2009, isso resultado de desonerações fiscais, em especial a automóveis e eletros. Outro caminho encontrado pela presidente, e citado em seu programa como mais uma solução para o crescimento, são as parcerias público privadas, onde o governo entra com o financiamento (via BNDES), e o setor privado com a “gestão eficiente”, e é claro o lucro, tudo em prol do desenvolvimento. Entraram na onda da privatização portos, aeroportos, rodoferrovias, rodovias e Hospitais. Todas estas medidas para buscar manter as classes dominantes satisfeitas, e por outro lado impedir que as classes dominadas enfrentem o desemprego e achatamento ainda maior em sua capacidade de consumo.

Como vemos a economia enfrenta turbulência, e as classes dominantes ainda continuam a expandir seus ganhos, já ganharam mais, mas continuam ganhando. As classes dominadas vem perdendo o acesso a uma das únicas conquistas que obtiveram junto a este governo: o consumo. Têm percebido pouco a pouco perda de seu poder de compra, afinal endividados não tem condições de contrair mais despesas. Perdem com a alta da inflação, perdem com a alta dos juros, perdem quando o Estado se endivida e investe menos em áreas sociais, o mesmo ocorre quando o Estado arrecada menos, de um jeito ou de outro perde, e paga as contas do neodesenvolvimentismo. Tais aspectos não poderiam deixar de influenciar o panorama político. Afinal quando a política do “ganha-ganha” não é possível, sabemos quem tem de “perder”.

Acabou a festa do crescimento, acabaram os amigos…

Vemos junto das condições de instabilidade econômica, despontar os primeiros questionamentos a cerca do governo. O consenso de classes forjado pelo PT em seus 12 anos de governo, parece se abalar frente a incapacidade de manter um cenário de crescimento econômico. Se este governo já teve avaliações positivas acima de 60%, chegando a 68% em Dezembro de 2010, e mesmo em março de 2013 ainda contava 63% de aprovação, atualmente sua avaliação caiu a quase metade disso, pois em 4 meses a aprovação ao governo caiu nove pontos, de 43% para 34%. Ainda segundo a mesma pesquisa do Ibope (abril) a desaprovação à maneira de Dilma governar subiu de 43% para 48%. Segundo pesquisa do mesmo instituto realizada em julho, gostariam que o/a presidente mudasse totalmente o governo do país: 29%; mantivesse só alguns programas, mas mudasse muita coisa: 41%; fizesse poucas mudanças e desse continuidade para muita coisa: 18%; desse total continuidade ao governo atual: 10%; e não sabe / não respondeu: 2%. Essa desaprovação ao governo Dilma, que possui influência indireta nas eleições, não consegue, contudo, ser captada por Aécio, mas por Marina, uma suposta alternativa, que como veremos não pode ser encarada como uma “saída”

Como dito, os problemas para reprodução do ciclo de crescimento, e a desconfiança na política do governo já tem seus resultados eleitorais, que se não retiram a estabilidade do governo, fazem o consenso em torno do PT ser atingido. Percebe-se o quão frágil são as conquistas petistas, que garantiram crescimento aos de cima, e acesso ao consumo e emprego (de baixa qualidade diga-se) aos debaixo, que ao demonstrar seus primeiros sinais de cansaço devido o modelo de desenvolvimento adotado, já mostra que aquilo que era tão consensual, talvez não o fosse tanto assim. São os frutos da engenharia do pacto social montada em todos esses anos de governo petista que, ao priorizar e fazer de centro de sua estratégia conchavos e alianças com os setores dominantes acabou deixando de lado a mobilização e organização dos de baixo, enterrando de vez qualquer perspectiva de transformação Socialista.

Sem crescimento econômico: debandada dos de cima… Sem garantia de Direitos: Insatisfação dos de baixo!

Como apontamos, a diminuição na taxa de crescimento aliada a fatores de coerência ideológica tem gerado tensionamentos por parte dos setores dominantes ao governo petista. Muitos deles feitos por meio da mídia, que ataca o PT e busca ampliar o clima de instabilidade, buscando favorecer a “oposição” ao governo, que agora promete modernizar a base produtiva com uma reforma tributaria, isto é sempre menos Estado, no que tange a gestão da economia e direitos, afinal não estão falando de uma reforma tributaria para implementar impostos progressivos. Mesmo a direita entrou na onda de criticar a copa (como alguns apontavam o General Figueiredo não fez a copa), e contrastando os estádios com serviço público.

Como apontamos anteriormente também, se não houve uma mudança radical na distribuição de riqueza também não houve atendimento à população no que tange aos serviços fundamentais. Se observarmos os principais serviços de atendimento a população: educação, saúde, transporte e saneamento, os mesmos não passaram por mudanças significativas, esperadas de um partido reformista. Nem podia ser diferente, se olharmos o orçamento de 2014, 42% são destinados à dívida pública. Somando isso à Lei de Responsabilidade Fiscal, torna-se difícil discutir qualquer mudança, ou reforma que seja. Não surpreende a privatização estar em uma crescente. Vemos recentemente esta noticia: Fusão da Anhanguera e Kroton cria a 17ª maior empresa da Bovespa

“Nova empresa passa a ter valor de mercado de mais de R$ 24 bilhões. Associação cria empresa com quase 1 milhão de alunos.”
(…)

De acordo com o CFM, do investimento federal total de R$ 47,3 bilhões em 2013, os R$ 3,9 bilhões da saúde representam 8,2%. Esse percentual, segundo a entidade, é menor que as fatias destinadas aos ministérios de Transportes (23,3%), Defesa (18,6%), Educação (16%) e Integração Nacional (9,3%).

Como pode-se notar a educação no Brasil continua a ser um negócio, e o aumento do investimento público se dá no setor privado. No ensino superior, por exemplo, veio por meio do PROUNI, que não é nada mais que a privatização de vagas públicas (estima-se que cada vaga no PROUNI custa cerca de 3 nas Universidades públicas). Ainda quando vamos olhar em como se encontra a educação, nos defrontamos com o seguinte panorama

Quando tocamos a situação das universidades, temos uma situação ainda mais crítica no que tange à administração do serviço por parte do poder público. Apenas 11% da população entre 25 e 64 anos de idade atingiu esse patamar educacional, quando o recomendável para nações desenvolvidas é, pelo menos, 31%. Atualmente, ao menos 74% dos estudantes do ensino superior têm de recorrer ao ensino privado, pois as instituições de ensino superior privado correspondem à maior parte deste serviço no Brasil. São 2.112 instituições privadas para 304 públicas. Somente 62% das pessoas com ensino superior e 35% das pessoas com ensino médio completo são classificadas como plenamente alfabetizadas. Segundo pesquisa do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa, os níveis de alfabetização e alfabetização funcional melhoram seu desempenho de acordo com a renda. Percebe-se que o produtivismo imposto à educação brasileira por órgãos internacionais nos anos de neoliberalismo ferrenho, combinado com a falta de atenção naquilo que tange às políticas de bem-estar social (em que renda é somente um elemento) e com uma universalização que não representou aumento suficiente em verbas (por consequência em ganho estrutural e pessoal), gerou uma estrutura sobrecarregada (salas lotadas) com número pequeno de professores, acabando por se converter em uma educação massificada de péssima qualidade. Nosso país não somente tem uma educação de péssima qualidade, como, por conta da expansão via universidades privadas, é incapaz de promover o desenvolvimento tecnológico, pois as privadas não investem em pesquisa e possuem um frágil sistema de produção de conhecimento. O Brasil é responsável por meros 2,7% da produção científica no mundo, o que é pouco para uma das maiores economias mundiais. Não é à toa que somente quatro universidades brasileiras estão entre as 100 mais bem avaliadas dos BRICS. Nessa área, a privatização se estende a todos os níveis, do básico ao superior, seja por meio da privatização de receitas, da estrutura pública ou pela liberalização que transforma um direito em mercadoria.

No recém aprovado PNE (Plano Nacional de Educaçao), grande parte da discussão ficou em torno de orçamento, os famosos 10% do PIB, e 100% do Pré-Sal. Se estas discussões são importantes, não podemos esquecer de pensar na qualidade e gestão da educação, justamente o que mais preocupa no PNE que preve a privatização do sistema de educação de cima a baixo, desde a educação infantil até a pós graduação.
Na Saúde não temos melhores situações em pesquisa recente, realizada pelo TCU aponta que 64% dos Hospitais encontra sempre superlotados, 81% das unidades tem falta de médicos, e 73% das instalações são inadequadas. Em pesquisa ainda deste ano (2014), constatou-se algo que não soa nada estranho frente a este panorama, 93% da população se encontra insatisfeita com o SUS e convênios privados. Recentemente ainda encontrávamos o seguinte cenário

Segundo pesquisa de 2011, cerca de 70% da população se encontra insatisfeita com os serviços prestados pelo SUS. Esse número se refere àqueles que, frequentemente, buscam o serviço. A principal reclamação é de falta de médicos, seguida da demora em agendar consulta ou exame na rede pública (IPEA), que podem chegar, segundo algumas fontes, a 9 meses. Segundo outra pesquisa, cerca de 60% da população usa somente o SUS, enquanto outros 30% combinam o uso do SUS com a saúde privada. Na prática, cerca de 90% da população depende dos serviços do SUS. Ele não obtém aumento real em sua suplementação desde 1994, pois, a inflação no setor de saúde acumulada na última década, de 83,3%, acabou por absorver os 32% de aumento em subsídios no setor. Vemos o atual governo romper somente na retórica com a antiga política privatizante, impondo-a por meio de medidas mascaradas, como no caso das empresas públicas de direito privado (como a EBSERH), que abrem espaço para as privatizações (hospitais de porta dupla) e promovem a mercantilização da saúde (não só no sentido comercial, mas também de submetê-la à lógica da administração empresarial em detrimento do bem-estar. Em nível estadual temos as suas equivalentes, as Organizações Sociais (OSs). Somente apontando esses dados preliminares, sem nos determos à fundo nas estatísticas relacionadas à saúde pública brasileira, é notável que a sua situação é catastrófica.
Ainda no que se refere o saneamento básico, tema diretamente ligado a Saúde Pública, dos 100 maiores municípios, 34 não tem plano de saneamento estima-se que 35,5 milhões de pessoas não acessam o saneamento básico.

No que se refere aos transportes, dos 50 bilhões adicionados por Dilma no orçamento para área, parece que pouco se investiu em transporte para a população. Acabou que a única conquista real da população foi a redução da tarifa nas mais de 100 cidades, e algumas cidades que passaram a garantir o passe livre por meio da força das ruas. Em geral o transporte continua na mão das velhas máfias do transporte, mais do que isso, esse orçamento suplementar caiu na mão de velhas oligarquias. O Cade realizou denuncia de cartéis nas obras de metro em São Paulo, Distrito federal, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Como vemos a situação continua igual ou mesmo pior.
Tais dados revelam a realidade de um Brasil que ocupa a posição de 46° lugar em novo índice que mede a qualidade de vida. O Indicador global IPS avaliou ‘progresso social’ em 132 países. Brasil foi o melhor dos Brics, mas foi superado por outros latinos. O país mais bem-sucedido da região foi a Costa Rica, que apareceu em 25° lugar. Em seguida, vieram Uruguai (26°), Chile (30°), Panamá (38°) e Argentina (42°). Como vemos não necessariamente “País Rico é País sem Pobreza” pois, mesmo em índices de instituições burguesas, aparecemos atrás no que tange a qualidade de vida de países com economias muito menores.

Igual não é, mas também não cai muito longe…

Parte da esquerda desqualifica seu próprio debate apontando que o PT segue a mesma cartilha neoliberal do PSDB. Entendemos que tais afirmativas, para além de serem de certo modo inverdades, desqualificam a esquerda que acaba por afirmar que a realidade promovida pelo PSDB, de privatizações estrito senso, e menos participação do Estado na economia são idênticas por parte do governo PT. Não se pode comparar o atual governo ao período do PSDB, quando somente de 95 a 2000 o desemprego cresceu 155,5%, e o investimento público na geração de emprego declinou 32,2 %. Soma-se que em 2000 o desemprego batia os alarmantes 15%, dos quais hoje estamos distantes. A política de protagonismo econômico do Brasil frente a economia mundial também é um diferencial. O Banco do Brics é um de seus últimos exemplos. A lógica ainda é a lógica capitalista, por óbvio, em especial porque o multilateralismo brasileiro pouco leva em conta as alianças políticas, mas o pragmatismo econômico (basta ver que Rússia e China estão longe de serem países democráticos), e visa em especial criar zonas de influência do imperialismo brasileiro.

Todavia vemos que a lógica privatizante permaneceu (agora sob a égide das PPPs), e que o investimento público, como demonstramos, não atingiu aquilo que espera-se de um governo reformista. Deste modo destacar diferenças não significa capitular ao “melhorismo” do PT, nem mesmo defendê-lo, mas compreender uma reconfiguração dos inimigos de classe. Ou seja, não há como negar que o governo PT se preocupou, de alguma forma, em favorecer a parcela mais precarizada da população brasileira, porém, sempre com políticas dualistas, onde os pobres ganham um pouco e os ricos ganham mais. Exemplo disso são os programas sociais que o governo PT desenvolveu durante sua gestão, como o Minha Casa Minha Vida ou o Minha Casa Melhor que, claramente, são políticas de estímulo ao consumo que visam aquecer o mercado.

Outro tema que vem aproximando o PT do PSDB é a forma como vem sendo tratados os movimentos sociais. Pois a repressão aos mesmos se tornou uma constante, como a judicialização da luta política. Os casos de São Paulo (2 presos) e do Rio de Janeiro (23 indiciados) são exemplares, e, se não são de responsabilidade direta do PT, são realizados com sua benção. Não é raro a guarda nacional e o exército serem acionados para combater movimentos. E mais, o PT foi um dos partidos que mais se esforçou por aprovar o projeto de lei que visava conter os protestos, aderindo mesmo ao projeto da bancada do PDT para acelerar a criação de dispositivos legais para reprimir manifestações. Cabe mencionar que o próprio exército vem sendo mobilizado para investigar manifestantes, algo que desde a ditadura não se via. Parece que estamos a relembrar a onda de terror e medo de investigações massivas, que chegam a absurdos para condenar militantes. A própria anistia internacional interveio no tema dos protestos relacionados à Copa, apontando que o Brasil vinha infringindo o direito a livre manifestação. Isto parece um contrassenso em um governo que tem sua presidente saída dos quadros da luta contra a ditadura, e mais absurdo quando vemos o cinismo da mesma: “Na minha época eramos presos por fazer política”. Tem se tornado lugar comum, os movimentos sociais serem tornados caso de polícia, e temos visto o mesmo tipo de montagem de “farsas” contra movimentos, dignos das épocas mais reacionárias de nosso país, botijões da gás que viram explosivos, livros de determinadas ideologias (em especial anarquistas) que se tornam prova de crimes (como na invasão do Ateneu Batalha da Várzea), mais recentemente ainda camisas, bandanas e suvenires de banda se tornaram prova de crime.
Para criminalizar o protesto, o PT e o PSDB vem contando com o apoio da mesma mídia que o PT acusa de golpista (e realmente o é até hoje, o wikileaks recentemente revelou documentos que revelam ligações de agentes da Globo e Folha de São Paulo a cônsules americanos). Mídia que os governistas apontam como sua principal oposição. Todavia há de se lembrar que se as concessões continuam na mão dos oligopólios da informação, é com a anuência do PT. Governos como o de Chaves e Kichiner revisaram tais concessões. Todos estes processos de criminalização buscam silenciar aqueles que denunciam o “bem estar” tupiniquim, criado por um governo que concede muito aos de cima, e que cede pouco aos de baixo, que precisa se comparar o tempo todo àquilo que existe de pior na política institucional para se situar a esquerda. Não tem existido deste modo menor constrangimento por parte do governo do PT na montagem e sustentação de farsas (é o caso de Tarso no RS) contra os movimentos sociais e na intensificação da repressão e organização de uma máquina de repressão aos movimentos sociais. A criação de bodes expiatórios como mascarados, black blocs, “fascistas” etc., se mostra como a faceta de farsas criadas para abafar as vozes descontentes, afinal a população deve aceitar resignada que o melhor que podemos alcançar em matéria de mudança social é o PT, e que qualquer oposição fortalece a oposição tucana, isto, claro, na visão do governismo. Estas farsas, que sim podem ser aproximadas (guardadas as proporções) aos tempos tucanos, e mesmo dos “anos de chumbo”, de alguma maneira obtiveram êxito em certo esvaziamento das ruas. Porém se a mídia consegue cumprir o papel de confundir, e busca esvaziar as ruas elegendo novos inimigos para colocar no lugar das classes dominantes, criando um antagonismo entre população e militantes/ativistas, estabelecendo as urnas como lócus da política, por outro vemos que o descontentamento e concordância com a necessidade de mudança não muda. Temos de observar ainda que em matéria de direitos humanos, este governo já firmou seu pacto com os setores mais conservadores, demonstrando que não podemos esperar nem as tímidas mudanças sociais que ensaiou o Uruguai, onde se descriminalizou o aborto e o uso da maconha, e mais deixando voltar a tona pautas de direita como internação compulsória para usuários de drogas e a malfadada “cura gay”. O PT é conivente com tais absurdos, pois nos bastidores Dilma já acalmou alguns dos setores mais conservadores da sociedade, (a exemplo de seu “pacto” com os neopentecostais) comprando seu apoio ao trancar pautas relacionadas a liberdades civis e direitos Humanos.

Já não nos defrontamos com o momento em que 8 em 10 brasileiros apoiavam as manifestações (Datafolha, 2013), que dois milhões saíram as ruas, em um contexto onde ocorreu uma manifestação a cada 3 dias na paulista (CET, 2014), não podemos dizer que a população está “acomodada” com a situação. Em uma recente pesquisa mostrou-se que se 73% dos paulistas vêm mais prejuízos do que ganhos nas manifestações, ainda sim 52% dos mesmos apoia as mesmas (Datafolha, 2014), cabe destacar a que pesquisa foi realizada no primeiro dia da greve de ônibus. De São Paulo, Estado mais rico em pesquisas do tipo, vemos que com o início da Copa caem 61%, mas que por outro lado temos 14,5% mais manifestações que em 2013 no primeiro semestre. O que podemos apurar disso, é que se as manifestações estão menores, se tornaram frequentes e parte do cotidiano, o “senso comum” já as compreende como parte da vida política, e isso podemos entender como uma mudança ideológica significativa na consciência dos brasileiros. Se a massa saiu às ruas, os velhos movimentos ganharam nova força em uma conjuntura ideológica mais favorável, vimos greves massivas, sem teto, etc. Por outro lado vemos uma confusão instaurada pelos meios de comunicação, endossadas por nossas personalidades políticas, que demonstram que se não existe uma homogeneidade entre PT e PSDB, as classes que os mesmos representam (ambos disputam a capacidade de representar as classes dominantes) tem uma mesma preocupação, assim passam a existir muitos pontos de contato, talvez o principal é de que os poderosos não gostam da organização e luta dos de baixo, e que seu trato é o mesmo, cooptar quem se pode cooptar, reprimir quem não concordar. Não é à toa que o candidato à presidência do reacionário PSDB (que tem em seu seio desde narcotraficantes, a membros da Opus Dei) não tem problema algum em colocar: “Política e administração pública é você copiar as coisas que dão certos e aprimorá-las. […] Não tenho o menor constrangimento de mantê-los e aprimorá-los [os programas socias do PT]“. Como vemos escolhemos no máximo com qual “molho” vamos ao fogo. O problema é da democracia burguesa, e não dos partidos em questão, salvaguardadas as diferenças, ambos terão que manter a “ordem”, sem ao mesmo tempo alterar nada de fato, pois não se pode distribuir direitos sem mexer na concentração de riqueza. Isso ficou claro nos dividendos políticos gerados na “sala de cima” da política pelo junho de 2013: mais repressão, fortalecimento do aparato militar, farsas e mentiras da mídia encomendadas por estes senhores e senhoras e claro mais recursos públicos paras as quadrilhas que se associam ao poder público.

Uma “Nova Velha” Alternativa

A “fatalidade” da queda do avião de Campos, abriu espaço a uma “nova” e ao mesmo tempo velha conhecida do eleitorado, Marina Silva. Dirigente da Rede Sustentabilidade, sigla que não foi legalizada, como herdeira natural de Campos assume a cabeça da chapa liderada pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro – cujo socialismo resistiu somente na sigla). A fraqueza do PSB e seu programa fica eminente, na medida em que cede sua sigla a uma “forasteira” no partido (afinal Marina apenas aluga a sigla por seu partido, a Rede, estar ilegal) na eminência do sucesso eleitoral. Isso tanto procede, que quando o chefe da campanha de Campos padece, tão logo o PSB anuncia Marina como nova candidata a presidência.
Não podemos deixar de lembrar que Marina, é uma velha novidade, na medida em que fez parte do atual governo. Mas as semelhanças com o passado, não param por ai. Se temos como “velhas” alternativas o PT de Dilma (mesmo lugar da onde saiu Marina) e o PSDB de Aécio, e como novidade a Marina da Rede (travestida de PSB), nos bastidores da política, a realidade é a mesma. Marina tem como grande financiador o maior banco privado do País: o Itaú. Conta com Neca Setúbal como sua estrategista, nada mais nada menos que a herdeira da rede bancária. Como já discutimos, sem enfrentar o capital financeiro que morde boa parte dos recursos orçamentários do país (com a arrolagem da dívida pública), fica difícil pensar em mudanças quaisquer. Quando tem-se o capital financeiro pagando a conta de uma candidatura, é eminente que esta candidatura em nada rompera com o status quo.
Outra mostra de que Marina é mais do mesmo fica por conta de sua prontidão em abrir mão de compromissos históricos seus e de sua legenda (no caso a Rede e não o PSB), que são com a ecologia e a tal sustentabilidade (conceito tão disputado que sem uma longa discussão pouco define, atualmente). Marina já se dispôs a apoiar e financiar o setor do agronegócio (supostamente seus inimigos históricos na pauta ambiental). Se aquilo que era o “coração” do programa de seu partido já se esvaiu na eminência de uma vitória eleitoral, no caso a suposta “intransigência” da ambientalista na defesa do meio ambiente, não podemos esperar que aquilo que está em um segundo plano resista. Deste modo temos uma terceira via que renuncia seu “programa” na primeira oportunidade, que flexibiliza aquilo que lhe é mais caro em nome do pragmatismo eleitoral. Diante de poucas certezas “programáticas” de Marina, a suposta Terceira Via: também representa a vitória do Capital. Entendemos que esses 3 projetos (PT, PSDB e PSB/REDE) representam variações administrativas no marco do Estado e que seguirão ajustados às relações de poder do sistema de controles do capitalismo financeiro. Não podemos nos deixar iludir pelas falsas alternativas; a SAÍDA À ESQUERDA É SÓ UMA.

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As Ruas são a Única Saída à Esquerda

Junho de 2013 nos mostrou que existe certo descontentamento com o governo atual, principalmente pelos setores médios da população. Porém, a esquerda combativa (leia-se esta, a esquerda que luta por fora do poder burguês) tem tido imensas dificuldades de aglomerar todo este descontentamento em termos de organização e construção programática dos de baixo. Nesse sentido veremos setores oportunistas “surfando na onda”, da necessidade de mudança, chamando às “urnas” que são o “verdadeiro” lugar da cidadania (Marina Silva tão prontamente tomou este posto). Mesmo assim, observamos uma disposição da população para com a luta e ação direta, que a muito não víamos. Quando se trata da juventude, aquela parcela da população escolarizada (os dados mostram que em junho a maioria era de universitários), com um perfil etário que não viu as mazelas do PSDB, mas que também não viu o PT em seus áureos anos de combate, tem aparecido com disposição para exigir mais, e isso o próprio PT admite em seu programa para 2014. Segundo a Pesquisa Agenda Brasil Juventude, nove em dez jovens acreditam que podem mudar o mundo, 83% entendem que a política é importante, e destes 45 % ( a resposta mais escolhida) dos jovens entendem “a participação e mobilização nas ruas e ações diretas” são o mais importante, seguido de 44% para “atuação em associações ou coletivos que se organizam por alguma causa”, em terceiro “atuação em conselhos, conferências, audiências públicas ou outros canais de participação deste tipo”, com 35%. Podemos ver que as “ruas” vencem na pesquisa, todavia os instrumentos da Política Nacional de Participação Social, ainda ocupam um bom espaço, assim sendo a cooptação e manipulação da participação popular ainda estão voga, em franca disputa com os movimentos sociais independentes, afinal esta foi uma das últimas cartadas de Dilma para tentar capitalizar a revolta das ruas, a institucionalização do PNPP. Sabemos que este é mais um engodo, não porque discordamos da participação popular, mas porque sabemos que na ordem do dia não serão colocados o orçamento, a dívida pública, mas sim a reforma política, que nada irá alterar, afinal as eleições e nossos representantes são uma das facetas do poder burguês. As relações de poder que garantem os privilégios e dominação das classes dominantes não serão alteradas pelas eleições. Nesse sentido, antes mesmo das eleições começarem, podemos ter uma certeza: as classes dominantes vencerão, e as classes oprimidas perderão, perder com governos que já tem pactuados seus acordos com as elites, os donos do poder, perder quando manipulados se enganarem e verem o poder neste processo, e assim se deixando cooptar pelo processo que somente legitima a Ditadura Burguesa com a áurea de democrática. A única vitória possível pelos oprimidos virá de sua organização e luta, pois mesmo as reformas não virão de uma mágica varinha de condão do Estado, mas pela capacidade de pressão que tem as classes oprimidas. É essa força que faz mesmo o reacionário PSDB aceitar programas sociais (afinal é temperatura da luta de classes que faz a política ceder, e não a benevolência ou consciência subjetiva destes senhores). Nesse ponto concordam PT e PSDB, bem como a classe dominante, o poder não pode se reorganizar, tampouco se democratizar, com reforma ou sem reforma política as eleições ainda serão uma encenação, o “espetáculo democrático”, pois os temas estratégicos para a população somente podem aparecer na ordem do dia por meio de sua ação direta. Junho é uma pequena mostra disso, se arrefecendo o espírito de luta na massa, as pautas das ruas saíram de cena ou fizeram uma metamorfose, se tornando interessantes a burguesia (voltemos ao caso da suplementação orçamentária ao transporte, cujo o dinheiro vem caindo nas mão dos velhos cartéis). PT e PSDB não são iguais, mas ambos são partidos da ordem burguesa que disputam a gestão do aparelho, não um projeto de sociedade. A esquerda “revolucionária” que participa das eleições sequer tem força para disputar o aparelho, e serve como mera legitimação do processo, emprestando-o ares de plural e democrático. As mudanças que se ensaiaram vieram todas das ruas, e somente aí se apresenta uma saída à esquerda para o processo. Seus programas recheados de “boas intenções”, como eles mesmo sabem, sequer tem chances nas eleições minoritárias, menos ainda nas disputas em torno do poder executivo, elucidando mais uma vez que não há “milagre” que substitua o trabalho e a organização de base, demonstrando que sua incansável propaganda (12 anos o PSOL, e 20 anos do PSTU) pouco renderam eleitoralmente ou organicamente. Sequer são capazes de criar um campo de unidade da esquerda, apresentando nas eleições uma esquerda que é minúscula e fragmentada, e que muito pouco pode definir na atual política brasileira.

O terreno ainda é fértil ao nosso campo, que ganha mais espaço público que em outros tempos. Não ao acaso nos tornamos o bode expiatório mais atingido pelas farsas policiais. A população, em especial a juventude, está aberta para discutir uma nova política. Uma “Outra Campanha” nunca esteve tão em voga, afinal o consenso dos Partidos da ordem atual em torno da necessidade de pactuar as classes sociais, e de gerir a miséria capitalista da forma mais “humana” possível, fazem com que as massas olhe com ceticismo o processo eleitoral. Acreditamos que a única saída à esquerda possível é a organização dos de baixo e sua luta direta nas ruas. Apostamos na construção de processos de massas, sem “imposição” de programas “revolucionários” de cima. Afinal vanguardas descoladas não radicalizaram os de baixo por osmose, pois estes constroem seu espírito reivindicativo no dia a dia dos conflitos e das mobilizações.

As Ruas ainda jogam peso no imaginário daqueles que fizeram sua experiência de luta em 2013. O protagonismo político exercido pela população, na opinião dos anarquistas, sempre teve como lócus as manifestações e ações diretas em geral. Diante da realidade, que nos ofereceu uma recente revolta de massas no Brasil, este elemento das Ruas se mantém vivo no imaginário coletivo. Tanto o é que todos os candidatos da extrema esquerda a extrema direita reivindicam o legado de junho. O TRE tenta capitalizar nas urnas a “vontade de mudança”, tentando estabelecer uma disputa de “urnas” versus “ruas”, tentando definir que o lugar da política e da decisão, tem dia, hora e local marcado, estes definidos pelas classes dominantes, que já venceram antes do “gongo soar”.

Para nós Socialistas Libertários, a política dos de baixo não se faz nas urnas, mas no cotidiano do protagonismo de classe e da ação direta. Falar disso no atual momento não significa mais remeter a abstrações ou ao passado “dos anos dourados dos movimentos de massa”, mas remeter a algo que evoca no imaginário coletivo um real exercício do poder do povo. Sem sermos ingênuos acreditando que só ir as ruas basta, sabemos que a falta de organização de base fragiliza os processos de mobilização e facilitam as tentativas de controle pelos dominantes. Deste modo, nossa aposta é nas Ruas como espaço privilegiado da ação política, mas também é a aposta na organização horizontal e de base que fortalece a ação direta, com uma agenda popular que delibera, encaminha e executa seu programa: um programa dos de baixo, que não delega poder a nenhum político de plantão. Ou se vota com os de cima, ou se organiza e se luta com os de baixo!

 

Coordenação Anarquista Brasileira – CAB
Setembro de 2014